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Andaluzia: vendo cometas brilhantes ziguezagueando debaixo d`água

Escrito por Renato Matiolli

Durante essa parte da trip pela Andalusia tivemos os dias menos produtivos em termos de velejo possível. Mas também vimos a natureza fazendo um espetáculo a parte para nós!

Começamos em Formentera, onde esperamos um tempão pelas condições de tempo perfeitas para sair, e valeu a pena. De Formentera velejamos 250 milhas náuticas (aprox. 450 quilômetros) até Almeria. Essa travessia durou dois dias e uma noite (37 horas), com uma velocidade média de 6.7 nós. Para aqueles velejadores mais sérios essa média seria uma porcaria, mas para nós… foi INCRÍVEL, e ficamos super orgulhosos. Essa travessia foi certamente a nossa melhor até agora, e conseguimos ir o caminho todo apenas com as velas, sem ter que ligar os motores nenhuma vez.

Screen Shot 2015-09-20 at 7_FotorAncoramos na praia principal de Almeria e continuamos vendo muitas águas vivas. A água estava transparente e com uma cara ótima para nadar, mas era impossível com a quantidade e tamanho bizarro dessas coisas na água. Pelo menos conseguirmos resolver várias coisas na cidade, concertamos a genoa, levamos o Feijão no veterinário (e tiramos um passaporte Europeu pra ele! Demais, não?), compramos mais dois botijões de gás para cozinhar, compramos mais crédito pro nosso celular pré-pago, fomos ao supermercado, etc.

Depois de resolver tudo só nos restou esperar… esperar… e esperar… mas como a Sarah queria muito chegar logo em Portugal para visitar as amigas e comer MUITA comida Portuguesa, acabamos saindo com uma previsão de tempo no limite do “velejável”. Bom, acontece que o tal vento nunca veio, e para piorar ainda tivemos uma correnteza forte contra nós durante metade do caminho. Acabamos tendo que motorar  por 160 milhas náuticas, e mesmo assim ainda nos levou muito mais do que havíamos planejado por conta da correnteza.

DSC01832_Fotor_FotorEu realmente detesto motorar por três principais razões, 1) a idéia é “velejar” pelo mundo e 2) gastamos muito diesel ($$ e poluímos!) e 3) acumula muitas horas no motor, o que quer dizer que eu vou ter que acabar indo de novo para o “buraco negro” mais rápido do que previsto para trocar os filtros, óleos, etc, no meio daquele espaço micro, sujo e com cheiros fortes. Cara, a próxima vez que um mecânico te cobrar muito dinheiro, não reclame… apenas pague. Não é um trabalho nada prazeroso.

Bom, na verdade não foi tudo tão negativo nessa travessia. Na verdade até tivemos sorte com algumas ouras coisas. Primeiro, pegamos um dourado (Mahi-Mahi) enorme, lindo e delicioso. O Feijão ficou de novo todo animado, e correu logo para dar umas lambidas. Mas quando estamos apenas a Sarah e eu no barco, a gente espera sempre pegar um peixe pequeno, e mesmo usando umas iscas menores, esses bichos enormes acabam vindo, a gente já não sabe o que fazer. E para piorar, quando estávamos tirando ele da água, dois outros amigos dele seguiram o coitado até ele vir pro barco, foi SUPER triste… A Sarah não parava de chorar de pena e até chegamos a desistir, tentamos soltar o bicho mas não conseguimos tirar o anzol, como ele já estava praticamente morto, acabamos seguindo com o plano A: comer ele. Estamos seriamente tentando ter uma vida mais vegetariana e não pescar mais a não ser que tenhamos o barco cheio de gente.

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Depois, outra coisa maneira dessa travessia foi que como não havia vento algum, o mar ficou lisinho, lisinho, o nascer e pôr do sol mais espetacular ainda, sem falar do nascer e pôr da lua que refletia de maneira mais intensa bem na nossa frente, criando um caminho iluminado pra gente navegar em segurança durante a noite. Simplesmente espetacular! Como dizia meu amigo Tomás… Aixxxxtral!

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Para concluir, acredito que a parte mais espetacular dessa viagem foram as centenas e centenas de golfinhos que vinham varias vezes nos visitar. O ápice foi quando quatro deles vieram brincar ao lado do barco durante a noite, lá pelas 3-4 da manhã. Eles nadavam bem pertinho e conforme se mexiam os plânctons bioluminescentes brilhavam forte em volta deles, como a água estava super calma e transparente dava para ver perfeitamente o contorno de cada um, mesmo no escuro da noite, era como ver uns cometas brilhantes ziguezagueando debaixo d`água. INCRÍVEL! Muito difícil descrever, mas tudo o que sei é que somos abençoados por termos tido a oportunidade de ver uma coisa tão espetacular e única como essa, uma performance maravilhosa da natureza. Nem preciso dizer que a Sarah ficou toda emocionada e chorou de alegria. Esse planeta azul é simplesmente incrível, espero que a nossa e as futuras gerações consigam logo para com tanta destruição.

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DSC01891_FotorPor algum motivo em Gibraltar o diesel custa um terço do preço comparado com qualquer outro lugar que passamos, portanto enchemos os tanques, descansamos um pouco e seguimos para Tarifa. Mas antes de sair, demos boa parte do peixe que tinhamos pescado para alguns velejadores que estavam ancorados perto da gente. Foi um sucesso e as pessoas até começaram a pedir dicas de pescaria para a gente. Dá para acreditar?!  Nós de repente dando dicas? Há apenas algumas semanas éramos totalmente sem noção no assunto… e para falar a verdade ainda somos. Sabe aquela coisa de sorte de principiante?

Depois de Gibraltar paramos no porto de Tarifa. As autoridades tinham uns barquinhos laranjas bem legais e foram super simpáticos e nos achar um espaço para atracar dentro do porto. Mas infelizmente o preço para ficar não valia a pena, o lugar era super mexido, com uma ondulação forte cada vez que um ferry enorme entrava ou saia do porto minúsculo. Além disso, conseguir resolver a papelada de entrada e saída do Feijão nesse lugar era um inferno, as autoridades por aqui são super estritas já que é um local de passagem com muita gente vindo de Marrocos, onde aparentemente ainda tem muitos casos de raiva entre animais.

Eu queria ter dado uma velejada de kite em Tarifa, lugar famoso para o esporte, mas a água estava MUITO gelada e nada convidativa. A gente até viu um povo velejando mas acho que deviam ser do Alaska para não estarem nem ai com aquele frio todo.

Então só nos restou continuar “na estrada” até Cadiz, nossa última parada na Espanha antes de chegar em Portugal. Em Cadiz ancoramos num lugar bem legal, era uma baía bem espremida entre umas formações rochosas que desapareciam durante a maré alta, só para reaparecer enorme quando a maré baixava. Durante a noite andamos pela cidade antiga, que é bem charmosinha. A Europa tem dessas coisas que certamente vamos sentir falta quando chegarmos no Caribe.

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Depois fomos dormir e esperar pelo vento que nos leve até Portugal.

E adivinha? A previsão finalmente estava certa, o vento apareceu durante a noite e agora estávamos finalmente velejando. A Sarah está mais que feliz, ela não para de listar a longa lista de comida com nomes esquisitos que a gente vai comer quando chegar lá (tipo percebes, amêijoas à bulhão pato, bruxas…) e todos os amigos que vamos encontrar. Que venha Portugal!

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Renato Matiolli

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