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Cruzando o Atlântico:
Simples Assim

Escrito por Renato Matiolli

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O que eu posso falar… a apenas um ano atrás a gente nem sabia velejar e agora, acabamos de cruzar um oceano! Simples assim. Estamos mais do que contentes com a performance do Ipanema e sentindo uma sorte e gratidão enorme por poder ter concluído essa travessia sãos e salvos e conquistado mais um sonho.

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As pessoas nos perguntam o que é que a gente faz durante as travessias?! Bom, para ser sincero, além de curtir a companhia um do outro, entreter o Feijão, velejar, pescar, cozinhar, ler, dormir e admirar o planeta (as ondas, o vasto oceano, os golfinhos, os peixes voadores, as estrelas cadentes, o nascer e por do sol e da lua a cada dia/noite) não fazemos muita coisa. Eu penso na vida. Penso nas minhas escolhas do passado e nas pessoas. Penso na minha família, meus avós que já faleceram, meus antigos e novos amigos. Também ouço muita música e presto uma atenção diferente nelas, é interessante como nosso gosto muda e como algumas músicas agora tem um significado completamente diferente, é difícil explicar. Também penso bastante no Brasil, no Rio de Janeiro, e como é complexo e complicado esse mundo que a gente vive. Também penso como a vida é injusta para tanta gente, penso porque que nós conseguimos e merecemos tirar esse tempo para curtir a vida, e penso como podemos retribuir algum dia.

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Algumas pessoas importantes na nossa vida nos ajudaram a conquistar esse sonho e fazer ele tornar realidade, e seremos eternamente gratos. Por isso decidimos escrever um novo post com algumas coisas que aprendemos nesse ultimo ano, quem sabe não motivamos e inspiramos alguns malucos por ai a seguirem os seus sonhos também?

Em relação a travessia em si, esse terceira (e maior perna) foi bem tranquila. O tempo, o barco e a tripulação se portaram super bem. Começamos com um vento bem forte e foi só lá pelo quarto dia que pudemos subir um pouco as velas mais do que o tamanho mínimo. Claro que estávamos sendo extra cuidadosos com tudo e certamente não erámos o barco mais rápido do Atlântico por causa disso, mas também não estávamos com pressa. Foi no quinto dia que as ondas e o vento começaram a diminuir. Quando chegamos perto de Barbados tínhamos apenas uma pequena brisa e usamos muito a gennaker. No final, a gennaker com a genoa abertas para lados opostos em estilo “borboleta”. Estamos muito orgulhosos em poder dizer que velejamos praticamente o caminho inteiro, usado o motor poucas vezes, a não ser para carregar as baterias durante a noite e ajustar as velas quando preciso.

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E quanto a tripulação, outra vez tivemos muita sorte. Conseguimos manter esse nosso estilo de vida recebendo hospedes que contribuem com parte dos custos, certamente não é a coisa mais fácil por que nos dá bastante trabalho, mas estamos felizes com a nossa decisão. De que outra forma passaríamos algumas semanas tão perto de um italiano, um dinamarquês e especialmente de dois russos? Uma imersão cultural na veia. Você quer ter uma experiência multicultural? Vem passar um tempo no Ipanema na nossa próxima travessia.

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  • IMG_0089_Fotor-JensPrimeiro tinha o Jens, o Dinamarquês, que eu já apresentei no ultimo post, continuamos encantados com a positividade desse caboclo. Só o fato do sol estar brilhando lá fora já é motivo para ele ficar feliz e celebrar a vida, de preferencia com um copo de vinho gelado. Não vemos a hora de ir fazer kite com ele em Barbados. Ele e o Feijão também viraram melhores amigos, claro que a Sarah e eu ficamos com ciúmes mas já perdoamos os dois – o Feijão por ser família, e o Jens por ter desenvolvido seus dotes de padeiro durante a viagem. Claro que enquanto o Jens preparava a massa do pão, Feijão “o gerente” estava sempre de olho para garantir que ele acertava nos ingredientes.

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  • P1190643_Fotor - PaoloDepois o Paolo, um Italiano… bem esse cara… eu queria poder dizer que ele é Brasileiro. Ele é realmente um embaixador do seu país e da sua cultura. Atualmente ele está num ano sabático velejando ao redor do mundo e curtindo um pouco a vida. Tenho certeza de que todos os lugares que ele passar vai deixar boas memórias. Ele é um velejador nato, responde super bem a situações de estresse, tem vasto conhecimento e é uma mente brilhante. E como era de se esperar, sabe fazer uma bela macarronada e ama Nutella. A única coisa que não me desce é que ele gosta e defende o iTunes… que em sã consciência gosta do iTunes?!?! Bom, ninguém é perfeito, certo?

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  • P1190485_FotorE finalmente o Arthur e o Phil, os Russos! Meu… os Russos! Para ser sincero estávamos um pouco preocupados com eles. O que eu posso dizer? Ele são Russos minha gente! Nós crescemos vendo filme de Hollywood onde eles são sempre os vilões, e para piorara o Phil parece um daqueles ex-agente da KGB.
    • P1190641_Fotor PhilO Phil, além de parecer da KGB (eu ainda tenho lá minhas dúvidas sobre isso) tem uma família linda (mulheres Russas… OMG) e um senso de humor afiado. Ele ama velejar, tem mais milhas náuticas do que eu provavelmente alguma vez terei, incluindo travessias passando pelo Cabo Horn, Triangulo das Bermudas e a África do Sul. Para você ter uma ideia melhor ainda do que eu estou falando, esses dois levaram uma vez um barco enorme de Cyprus para as Maldivas e para assustar possíveis piratas da Somália, eles transformaram um bar velho e dois canos numa barricada e canhões de mentira no topo do barco. Deu para imaginar? Além disso tudo uma das coisas que ele mais gosta de fazer é tirar uns dias de férias e viajar para o meio do nada na Rússia para fazer sauna e depois sair lá fora, enfrentando ursos e lobos, para pular numa água abaixo de 0° por um buraco feito no gelo. Certamente não é uma pessoa normal.

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  • P1190417_Fotor - ArthurO Arthur é uma apaixonado pelo mar, mergulho e pesca, e dentre outras coisas tem uma empresa que organiza férias para mergulhadores nas Maldivas. Eu certamente posso afirmar que por causa dele, durante a nossa travessia, o Ipanema podia facilmente ser comparado a um pequeno barco de pesca Chinês. Ele também sabe como secar o bicho e fazer sopa com a cabeça do peixe (definitivamente não são para mim). E para você ter uma ideia melhor do tipo de cara que ele é, sem nenhum experiência em tecnologia ou eletrônicos, ele conseguiu salvar o telefone de satélite do Phil que tinha levado um banho de água salgada. Ele abriu o negócio, limpou, secou, concertou, fechou e fez o aparelho voltar a funcionar! Tenta só levar teu iPhone numa loja da Apple com algum indicio de que foi molhado para ver a reação dos “técnicos” deles.

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Deu para ter uma ideia dos caras que tínhamos a bordo? Bom, quem mais você acha que teria coragem de cruzar o Atlântico com um casal de brasileiros e um cachorro estranho sem experiência?

E nosso querido Feijulino agora é um pirata do Caribe, que se comporta como um verdadeiro velejador. Acho que ele está até pensando em deixar a barba crescer. A gente ama nosso pançudinho desajeitado cada dia que passa mais e mais, e ele continua sendo o coração e a alma do barco. Agora, além da sua paixão descontrolada por bananas, ele descobriu um novo amor na sua vida – peixe! Principalmente atum. Agora cada vez que ele ouve a vara de pescar zunindo quando a isca é mordida, ele correr para ver o que é pois já aprendeu que certamente alguma coisa deliciosa vai vir. Ele também está se comportando cada vez melhor pelo barco e continua fazendo as suas necessidades bonitinho lá na proa conforme foi ensinado, mas as vezes a gente se arrepende de ter decidido que lá ia ser o lugar, pois mesmo durante a noite com mar mexido, se ele fica com vontade, é para lá que ele corre, e a gente corre atrás com medo dele ser levado junto com algum onda. Mas o doido não está nem ai, vai lá na frente feliz da vida, sem nenhuma preocupação, dá sua agaixadinha e resolve o assunto, sem noção do perigo! O jeito agora é dormir com a porta do barco fechada e as vezes acordar no meio da noite com ele reclamando se precisa ir ao banheiro, pelo menos acompanhamos ele na coleira e as vezes com colete.

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Como mencionei no começo, a pescaria foi um sucesso! Já de cara começamos bem, pescando um lindo e delicioso atum logo algumas horas depois de zarpar de Cabo Verde. No dia seguinte pegamos um Jack Fish, depois outro menor, que acabamos perdemos enquanto trazíamos para o barco. Alguns dias depois pescamos um Dourado, e antes de conseguir tirar a segunda vara da água já tínhamos pegado outro, que acabamos por soltar de volta ao mar. A pescaria seguiu assim por boa parte da viagem. O resultado foi que pescamos mais do que precisávamos, e isso porque as varas ficavam fora da água várias horas por dia. Aparentemente pescar é mais fácil do que a gente achava. Tínhamos tanto peixe que os Russo decidiram salgar e secar alguns no sol. Dá para imaginar a cara e felicidade da Sarah com aquele cheiro e o visual de carcaças de peixes penduradas na popa do nosso lindo barco? Pelo menos o Feijão estava bem mais curioso e entretido com aquilo tudo do que a gente. Eu alguns dias até preferia que a gente não pescasse para poder comer minha comida preferida… Espaguete Bolonhesa da Barilla! YUM!

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Mas mudando de assunto, umas das coisas que eu aprendi nessa travessia foi olhar pro lado oposto do pôr e do nascer do sol. É como quando a noiva entra na igreja e todo mundo vira para olhar ela majestosa, e esquecem de olhar pra traz para ver o noivo muitas vezes lá suando de nervoso que nem um porco – as vezes é mais legal olhar para o outro lado e ver coisas diferentes. De uma maneira mais ou menos parecida (eu acho) aprendi a olhar para o outro lado e normalmente nessas horas do dia o céu e as nuvens se transformavam em várias cores incríveis… espetacular.

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Para resumir, essa travessia foi realmente uma experiência de vida inesquecível! Cruzamos um oceano minha gente!! Afe! Por um lado ficávamos preocupados quando o vento e as ondas aumentavam, só de pensar que se alguma coisa acontece você está no meio do nada, a horas ou até dias da ajuda mais próxima; mas por outro lado, era incrível ter realmente a sensação de uma verdadeira aventura, hoje em dia é tudo tão previsível, controlável e muitas vezes seguro, que não é sempre que podemos nos sentir assim.
P1190462_FotorE agora, acho que podemos dizer que somos realmente velejadores!! Não acham? Por duas razões: um… cruzamos o Atlântico, e dois… colocamos redinhas para frutas e legumes penduradas na popa do barco, como todo bom velejador que vive a bordo faz. Só que essas redinhas na verdade são uma bela porcaria, depois de três dias todas as nossas frutas já estavam apodrecendo. Frustrante. Mas não importa, o que vale são as aparências, certo? Pelo menos agora temos pinta de quem entende do assunto, e quem viu a gente saindo de Cabo Verde com as nossas frutas bonitinhas penduradas na traseira do barco deve ter achado que a gente manja do assunto.

Bom, e agora, finalmente, terra a vista! Graças a Deus o GPS estava certo e nos guiou até Barbados. Estamos ansiosos para essas próximas semanas. Acho que vão ser demais, as coisas que a gente mais ama estão nos planos: visita de família e amigos para Natal e Reveillon, clima tropical, surfe, kite, mergulho e comida boa, peixes e mariscos. Bom, espero que a gente encontre também uma boa pizza e sorveteria em Barbados.

E agora pessoas, hora de CA-RI-BE! Chegamos aqui de barco cara! Velejando… Dá para acreditar? Hora de “Coconut Freestyle”!

Sobre o autor

Renato Matiolli

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