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Travessia do Atlântico:
Algarve às Canárias –
Ansiedade e Sucesso!

Escrito por Renato Matiolli

A travessia até as Canárias foi uma experiência e tanto, foi nossa maior travessia até hoje e levou 5 noites e 5 dias para chegarmos. Estávamos todos bem ansiosos, esperamos um tempão e mesmo assim acabamos saindo com uma previsão de tempo preocupante a nossa frente. Durante a travessia acabamos tendo um pouco de tudo, tempo ruim, tempo bom, sol, vimos muitos golfinhos e até uma baleia apareceu! Tivemos uma tripulação ótima, e agora já não somos assim tão novatos no Atlântico. Foi uma experiência incrível, talvez a perna mais difícil que vamos encontrar até chegar no Caribe, mas o mais importante, comprovamos que o barco está em perfeitas condições e estamos mais confiantes para cruzar até Cabo Verde e de lá para Barbados.

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Screen Shot 2015-11-07 at 12_FotorEsperamos um mês, muito mais do que o esperado, para termos condições perfeitas para cruzar de Portugal até as Canárias. Se olharmos os dados históricos, 70% do vento nessa época do ano deveria vir do nordeste, norte ou noroeste, então não deveria ser assim tão difícil encontrar uma janela para cruzar, mas esse vento nunca veio. Depois de esperarmos um mês, acabamos saindo de Portugal com condições não muito favoráveis: tinhamos apenas dois dias de vento a nosso favor, muita chuva e ondas enormes, estávamos super ansiosos e com um pouco de medo do que íamos encontrar pela frente.

Toda essa espera acabou nos deixando mais ansiosos que o normal, e a previsão de ondas enormes só pioravam nosso estado. Lembrem que essa era nossa maior travessia até hoje (640 milhas náuticas), nosso primeiro velejo em oceano aberto, e a primeira vez com ondas tão grandes vindo de lado. Estávamos saindo de Portugal (país com a maior onda surfada no mundo) e indo em direção das Canárias (também conhecida como o Havaí da Europa), estamos falando de lugares com mar ALTO… e, para ajudar, tudo isso na temporada alta do surfe. Deu para imaginar?

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Bom, eu acredito que a preparação para o desconhecido sempre traz ansiedade e medo, é uma sensação bem primitiva, que pode ajudar muito ou arruinar os momentos de decisão das pessoas. Nós tentamos ver o lado positivo da coisa, já que isso tudo é uma nova dimensão de aprendizado para nós, onde estamos descobrindo até mesmo como reagimos em situações como essa, tão diferente das nossas vidas passadas, onde as coisas eram mais controláveis e confortáveis. Quando embarcamos nessa volta ao mundo não sabíamos muito bem o que esperar, mas até hoje tem sido uma experiencia incrível, muito melhor e maior do que poderíamos imaginar.

Como esperamos tanto tempo para fazer essa travessia, tivemos alguns tripulantes que acabaram tendo que ir embora antes…

  • 12235508_613234098814994_139713296_o_FotorPrimeiro foi o primo da Sarah, o Neto, um cara super engraçado, que sempre acaba rindo de qualquer situação, com uma energia contagiante. Infelizmente ele não pode esperar por tanto tempo, acabou tendo que desistir da travessia e voltar ao trabalho no Brasil. Foi uma pena, mas no fundo talvez tenha para melhor pois ele já estava se sentindo mareado na própria marina e os primeiros dias da travessia foram bem pesados. Agora esperaremos por ele no Caribe!
  • Também tivemos o Viktor, um sueco gente boa que ficou com a gente por algumas semanas em Portimão, mas acabou nos deixando pois encontrou outro barco que o levaria até o Caribe (e nós já estamos com o barco lotado das Canárias até lá!)
  • Tivemos até um casal francês artistas de circo, o Patrick e a Ariane, que vieram até o barco, nos mostraram alguns malabarismos, mas também acabaram indo embora pois encontraram um circo no Brasil que precisava deles imediatamente, e decidirão ir para lá de avião.
  • E ai tivemos o João, um Português nota mil, formado em engenharia civil e atualmente a procura de uma nova carreira no mundo náutico. Ele está completando as milhas náuticas necessárias para conseguir o diploma de Yacht Master, e foi a única alma corajosa que ficou do nosso lado até o final. Temos certeza que ele será muito bem sucedido nessa nova carreira, e na busca por novos sonhos, é um caboclo sangue bom, astuto e muito competente, além de amigo e companheiro. Essa travessia sem ele teria sido muito mais difícil.
  • Depois veio o Pedro. Esse “grande craque”, nosso novo amigo de Portimão, que agora já virou parte da família Ipanema. Ter ele por perto é como ter um irmão no barco, o cara é muito gente fina, alto astral, sempre a postos para ajudar com qualquer coisa, e além de tudo descobrimos que é um artista, tira excelentes fotos. Não vemos a hora de chegar nas Canárias para pegar altas ondas. O crowd que nos aguarde, vamos brilhar.
  • E por último chegou o Mitch, um alemão que acabou se juntando a nós no momento derradeiro. Ele começou a velejar recentemente e é daqueles que topa qualquer aventura diferente.

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Saímos de Portimão no Domingo de manhã e começamos a velejar em seguida. Depois de algumas horas já tinhamos ondas de 5 a 6 metros passando de um lado ao outro do barco. Conforme a previsão já havia nos avisado, as ondas eram enormes, mas tinham um período longo, o que na prática quer dizer que havia um tempo grande entre uma onda e outra, deixando elas mais planas, mas mesmo assim ainda foi pesado e muito mexido. Se não fosse pelo vento forte, as condições não teriam sido tão ruins, no começo a viagem não foi nada confortável, dois dos nossos tripulantes ficaram bem enjoados e não saíram das suas cabines nas primeiras 24 horas.

No segundo dia, o tempo começou a melhorar, tivemos alguns períodos de sol, mas que infelizmente eram seguidos de tempestades com nuvens negras, chuva forte e rajadas de 40 nós, e com isso as ondas pareciam ainda maiores. Durante a noite foi pior, como o vento havia diminuído ao entardecer, subimos a vela principal até o primeiro riso e abrimos a genoa, mas com a escuridão não conseguimos antecipar as tempestades, e foi bem complicado passar pela primeira. Nunca achamos que teríamos que ajustar as velas tantas vezes velejando pelo Atlântico, temos feito isso muito mais do que qualquer travessia no Mediterrâneo.

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Bom, mas com o passar do tempo as condições foram só melhorando, até um dado momento que o mar ficou totalmente calmo, sem nenhuma onda, e o vento também morreu, e não tivemos alternativa, a não ser baixar as velas e ligar os motores, até o final da viagem. O que nos restou foi pescar (pegamos um Mahi Mahi delicioso que a Sarinha fez grelhado com um molho de alcaparras), admirar várias estrelas cadentes durante a noite, ver o espetáculo do pôr e o nascer do sol a cada dia, e ficar todos totalmente contagiados com as centenas de golfinhos que vieram inúmeras vezes nadar e pular ao lado do barco! Eu e a Sarah até chegamos a ver uma baleia ao longe! Sim! Uma baleia!! E adivinha que ficou toda emocionada com lagrimas nos olhos de novo, e quem não parava de latir para os golfinhos? Mesmo recuperando da patinha quebrada?

E assim foi mais uma travessia no nosso glorioso Ipanema…

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Renato Matiolli

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