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Travessia para Cabo Verde: Vai Ipanema… vai Véi de Guerra!

Escrito por Renato Matiolli

Essa travessia para Cabo Verde foi mais um grande passo para nós e mais um recorde pessoal de distância. Para resumir, foi bem cabreira. Claro que também aproveitamos, sempre bom ver o nascer e pôr do sol em alto mar, vários golfinhos vieram brincar ao lado do barco algumas vezes, uma baleia curiosa passou perto, centenas de peixes voadores por todos os lados e ainda conseguimos pescar uma lula gigante e um dourado. Para melhorar as coisas, a tripulação foi incrível. O desafio dessa vez foi a intensidade do vento, quase que o dobro do que estava na previsão, portanto muito mais do que a gente gostaria. Ficamos literalmente por uma semana de cabelo em pé. A boa notícia é que velejamos a maior parte do tempo, foi uma boa prova para a tripulação e para o barco. O Ipanema surfou aquelas ondas como um glorioso véio de Guerra.

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A travessia foi cerca de 860 milhas náuticas, o que equivale a uns 1,600km. Em linha reta, é mais ou menos a distância entre o Rio e Maceió. Se até num carro indo a 120km/h isso é chão, imagina num barco navegando a 5-6 nós… levamos 7 dias e 6 noites para completar o trajeto. O começo foi bem legal, tivemos um ventinho bom que deu para velejar apenas com a gennaker, bem tranquilo, até que ele começou a aumentar, ai subimos a vela principal e abrimos a genoa no estilo borboleta, e fomos assim por várias horas, nada mal.

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Mas conforme o vento foi soprando cada vez mais forte e as ondas aumentando, o piloto automático já não podia nos ajudar muito, e foi duro. A previsão era de vento entre 18-24 nós o caminho inteiro, mas a realidade foi entre 28-42 nós a maior parte. Esse vento forte formava ondas grandes com periodo curto, o que torna as coisas bem desconfortáveis. Continuamos velejando com as velas totalmente rifadas (reduzidas) e rezando para o piloto automático não quebrar. O barco e a tripulação se portaram super bem, e agora estamos todos exaustos mas confiantes com a perna maior do Atlântico que está por vir (que aliás, só pode ser mais fácil que isso).

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É engraçado que depois de passar quase um ano no mar a gente começa a desenvolver uma estranha conexão com o barco. O Ipanema agora não é só apenas a nossa casa, mas é também nosso porto seguro e companheiro. As vezes parece até que tem vida própria. Enquanto eu escrevo esse post o Ipanema é apenas um pontinho branco na imensidão azul do mar, mas é o que nos mantém vivos e seguros no meio dessas ondas enormes e do vento incansável. Enquanto a gente vai revezando o turno de vigília, enquanto comemos, dormimos, descansamos, lemos, vemos filmes, o Ipanema é imparável. Ele vai ganhando terreno e vencendo as ondas como um tanque de guerra. Vai levando uma sova das ondas que batem no casco lateralmente chacoalhando ele todo, resistindo as fortes rajadas de vento, fica imundo com a areia marrom que vem do deserto do Sahara, e em seguida toma um banho salgado com as ondas que por vezes alcançam o deck. Ele nunca para. Somo gratos por ele aguentar tanto e cuidar de nós nessa travessia doida. Gosto de acreditar que no fundo ele realmente não foi feito para apenas “motorar” pelas ilhas paradisíacas da Croácia, e sim conquistar o mundo com a gente. Não dá nem para pensar que um dia talvez teremos que nos desfazer dele, depois de tanto o que já passamos juntos, hoje em dia espero que esse dia nunca chegue.

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Bom, voltando a vaca fria… a viagem. Logo que saímos das Canárias vimos uma baleia que cruzou calmamente o nosso caminho, enquanto a Sarah pulava toda empolgada e cheia de alegria. Uma série de golfinhos volta e meia aparecia para nadar junto ao barco, vimos também um peixe lua, vulgo Mola Mola (ai me lembrei de um grande amigo cabeção igual a ele) e também avistamos duas tartarugas tranquilas passando por nós, mas o melhor de tudo acho que foram os milhares de peixes voadores que saltavam loucamente ao nosso lado pulando contra as ondas durante todo o caminho. Todas as manhãs acordávamos com alguns que acabavam pousando sem querer no nosso deck; claro que o primeiro a achar eles era sempre o curioso do Feijão. Acredite se quiser, teve um dia que até achamos uma lula pequena! Vai saber… os tripulantes mais filósofos acreditam que só pode ter vindo com uma das ondas que lavavam o deck de vez em quando, alguns dizem que foi um pássaro negro de bico vermelho que trouxe, outros afirmam que só pode ser coisa do capeta.

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Já no quesito pescaria, brilhamos novamente! A travessia também foi um sucesso. Primeiro pescamos uma lula gigante vinda diretamente das historias de Julio Verne e as 20.000 Léguas Submarinas. Dois dias depois um dourado que serviu de jantar para nós seis por duas noites seguidas. Aliás, tirar um peixe de um metro da água com ondas enormes e rajadas de 40 nós, parecia que estávamos pescando uma baleia azul de tão pesado.

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Aproveitando, preciso dizer o quanto a Sarah foi uma bela guerreira destrinxando  aquela lula gigante que parecia um alien pré-histórico, assim como limpando o dourado, ainda mais naquelas condições com o barco chacoalhando de um lado para o outro, ela parecia uma profissional com suas facas afiadas limpando e cozinhando os bichos. Ela continua me impressionando a cada dia, além de estar cozinhando cada vez melhor, ela também consegue ler e ver filmes durante toda a travessia sem enjoar, e ajuda a velejar o Ipanema sempre que preciso.

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Para os amantes de cachorro, a ótima notícia é que o pilantra do Feijão já está se sentindo ótimo depois de todos os antibióticos que tem tomado, e já está praticamente pronto para outra. Infelizmente com essas ondas grandes a gente tenta com que ele fique quieto dentro do barco, o que não acontece sempre. Vira e mexe a gente está correndo atrás dele pelo deck afora, rezando para ninguém cair do barco. O problema com o gordinho é que ele é totalmente sem noção, e sem medo nenhum de andar até a pontinha do barco para ficar admirando as ondas. Uma combinação perfeita para cair do barco, e como ele nada tão bem quanto uma bigorna, cada vez que ele sai lá fora com mar grande é um “barata voa” disgraçado.

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Para adicionar a parte dura da viagem, tivemos três situações que me fez perder um pouco mais do pouco do cabelo que me resta:

  • Primeiro, em dado momento no meio do Atlântico, vimos que um dos porões estava enchendo de água. Até você entender o que está acontecendo, é um Deus nos acuda e a única coisa que você consegue ouvir é o alarme tocando e a tripulação te olhando confusa e com medo, enquanto você está lá olhando para aquele aguacê todo, panicando mas tentando manter a calma e entender que diabo está acontecendo. Para a nossa sorte, descobrimos logo que foi só uma das mangueiras do dessalinizador que soltou e estava jorrando água doce para dentro, o que já tinha acontecido uma vez, então sabíamos exatamente o que fazer e resolvemos rapidinho.
  • Depois, um dos tripulantes durante uma manobra a noite, achou que era o incrível Hulk e que conseguia segurar o cabo da vela principal apenas com as mãos, sem a ajuda do guincho, com mais de 30 nós de vento. Adivinha? Claro que não conseguiu. Ai no meio do mar, a retranca escapou e bateu com toda a força nos estais. Se um deles tivesse quebrado, o mastro simplesmente cairia e ai sim seria um samba do crioulo doido. Ele também podia ter se machucado seriamente e estávamos a dias de um hospital mais próximo. Graças a Deus nada disso aconteceu, acho que da próxima vez nos briefings de segurança vou ser ainda mais detalhista nas coisas que não se podem fazer nunca!
  • DSC02358_FotorFinalmente, há dois dias do final da travessia, um dos cabos que segura o lazy bag (capa na retranca que segura a vela quando não está sendo usada) quebrou, deixando a parte de baixo da vela que estava rifada pendurada do lado da retranca, o que limitava nossa manobrabilidade até que fosse consertada. Mas o mesmo Hulk do cabo da vela principal, acabou tendo uma idéia brilhante e conseguimos concertar temporariamente o lazy bag com uma das adriças.

Claro que não posso terminar esse post sem agradecer a nossa tripulação. Fazer essa travessia nessa condições não seria possível sem eles, ou no mínimo, extremamente cansativo e perigoso. Estou feliz que vamos estar junto até Barbados, agora é rezar por tempo bom e vento mais calmo.

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Agora, é hora de descansar, reabastecer e explorar Cabo Verde na nossa próxima grande travessia ate Barbados!

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Sobre o autor

Renato Matiolli

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